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O átrio da estação brilhava, molhado, sob as várias camadas de fumo e nevoeiro. Não estava cheio, claro, mas era ainda considerável o número de pessoas que esperava. Para além disso, a azáfama do pessoal da limpeza, os comerciantes que fechavam as pequenas lojas e o voo de alguns pombos mais tardios contribuíam para um ar ainda caótico, apesar da hora. Teodora dirigiu-se ao enorme placard azul que anunciava as partidas – Zagreb, 23.30; Moscovo, 23.45; Minsk, 23.50; Praga, 23.50; Bratislava, 00.05 – olhou para o enorme relógio que dominava, por cima da porta, toda a estação e verificou que ainda tinham meia hora. Propôs então a C. que se fossem sentar um pouco no café da estação. Frequentemente se tinha sentado ali, à espera de amigos ou de partida para uma das suas breves viagens. Gostava daquela atmosfera. O café chamava-se Palace ou Royal, como todos os do seu género. Teodora comovia-se sempre com o ar deslocado dos cadeirões e dos lustres, com a falta de sentido de todo aquele luxo atirado assim para o canto de uma velha estação de comboios. Enfim, C. pediu um café e T. um ginger ale. Claro que aquele era o momento mais desconfortável, aqueles longos minutos que se escoavam em silêncio, os olhares vagos, fugidios, acender um cigarro, olhar, tentar sorrir e conseguir apenas um sorriso triste e aquele mesmo olhar que se tentava evitar, depois a absoluta ausência de conversa, as frases banais – mando notícias, claro, quando chegar, depois a morada, assim que a tiver – e de novo o silêncio, constragedor e carregado de palavras por dizer, os olhares, mais um cigarro, bom, faltam dez minutos, se calhar é melhor ir andando, claro que bastava levantarmo-nos três minutos antes mas alguém tem de acabar com isto. Por breves instantes, caminharam lado a lado ao longo da plataforma número cinco e os seus passos ecoaram na estação entretanto adormecida. Aquele era o último comboio e não parecia ter muitos passageiros. - Bem, acho que agora dizemos qualquer coisa, adeus, até breve? Um beijo atrapalhado, rápido, e Teodora começou a dirigir-se à porta enquanto C., parado, a via afastar-se. Mas, subitamente, tão rapidamente que nem conseguiu tre consciência do movimento antes de o fazer e talvez impulsionado por todas as memórias de todos os filmes que vira ao longo da vida começou a correr, correu até ela, agarrou-lhe no braço, obrigou-a a voltar-se, a olhá-lo nos olhos. Foi então, quase à porta da carruagem número sete, classe económica, que ele lhe perguntou: Vais mesmo? Após alguns minutos de silêncio, ela pousou as malas e respondeu. |