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suspensos na surpresa dos instantes [entries|archive|friends|userinfo]
cafejuntoaorio

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wissenschaft der logik 2 [May. 12th, 2009|08:55 pm]
mas se ainda assim,
duvidas do fluir das margens obscuras
das dimensões florais e do nada
atenta então nas subtis oscilações
de um outro olhar

repara
que a planta é
- embora não como tu -
sujeito
e que por isso mesmo
nada se assemelha

que o mundo é pleno
precisamente na medida em que
nada há de permanente

por isso, avança como sempre
mas já sem ilusões

la manifestation est le mouvement
de naître et de périr

a distância infinitamente curta
onde discretamente se encontra
a liberdade
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wissenschaft der logik [May. 8th, 2009|03:09 am]
começas
uma pauta lenta de todos os passos
perdidos pelas ruas

de todos os olhos abertos
numa renovada maravilha
que, como um privado eterno retorno
contrariam a nossa querida
tão familiar
dialética

e numa mesa amarela
de um café já em si amarelo
estranhamente ao sol
és novamente tu
e são novamente as buganvílias,
novamente o mar

é o devir que te rodeia
e ainda assim tu permaneces

uma flor que teima e continua flor
indiferente à necessidade da História.
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memórias de um início [Jul. 29th, 2008|08:24 pm]
Amamos sempre mais
as manhãs que vemos nascer,
os dias claros e limpos
que acariciamos
com a fragilidade do fumo
doce dos olhares gastos dos dedos
demasiado compridos para uma última valsa

Amámos sempre mais
a estrela da manhã,
o seu fulgor azul murmurado
entre dois cigarros um copo de whisky algum
veludo velho,

uma cama de folhas vermelhas

ao canto sobra apenas
uma luz ainda acesa
apesar do dia
que o cansaço vence.
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(no subject) [Jul. 18th, 2008|09:20 pm]
Entre a displicência dos pássaros
e uns outros copos de gin
observas a perfeição
que lentamente se revela
no apertado labirinto do mundo
e na leve intermitência das estrelas, mas

já a cidade que se esconde é sem sentido;
na angústia violenta das acácias só
o teu nome dá o nome às coisas.
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Teresa [May. 24th, 2008|05:34 pm]
caminhas pelas estradas
de pó amarelo e sonhas
Teresa com os longos cabelos
negros sobre os ombros
e flores de amendoeira junto aos olhos

sabes que amas
mas não te lembras bem porquê

basta-te entretanto essa certeza triste
que se confunde
com os estilhaços da chuva

vais, pelos caminhos longos
de quem não sabe partida
nem destino,
procurar apenas o silêncio

esse lugar
onde a origem das coisas
se confunde com a serena
secreta
liturgia das ondas.
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(no subject) [Apr. 20th, 2008|02:54 pm]
 

Na doação de ti mesma contra o tempo
esqueces o sol, o mar, a vida lá fora.
Se ris, o teu riso é de lágrimas doces.


Já viste Alexandra, com o seu vestido negro,
avançar para a água e
percebeste que a vida é apenas um raio de luz
sobre a terra.
Entrega-te pois a esse outro feito de
cardos e mel.


Podes amar até ao fim do esquecimento
numa violenta explosão de papel químico
e azul
acreditar numa eternidade qualquer
(porque todas se equivalem).

Podes, com os teus ombros molhados
pela chuva e os olhos tão abertos
para o milagre das coisas.

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metafísica [Mar. 24th, 2008|12:35 am]
 

É preciso encontrar a verdade. Talvez

            a encontres num cigarro,

            numa última cerveja, talvez   

            no corpo despedaçado de um deus morto.

 

            Se não houver nada para além

            do fenómeno, limite de um mundo

            reduzido a estrelas negras e holofotes

           

            então o gesto morre,

            na infinita distância entre

            os dois pontos do contínuo.

 

           

            A verdade, essa, a existir

            jaz num agora ainda mais inefável acervo

           

de luzes coloridas.

 

           

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(no subject) [Mar. 24th, 2008|12:31 am]

 

Basta-me o fulgor discreto dos teus gestos

essa dimensão rubra de ti

um crepúsculo em que se unam

todos os estilhaços de pérolas

para ser

um uno universal unificado

 

por isso podemos sorrir

devolver palavras ao silêncio,

adiar.

Ser apenas

 

algodão e cinzas

para que te encontres em mim

como no sono calmo das estrelas.

 

Entre confidências e cigarros há essa

palavra única, o calor secreto da manhã.

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noites claras II [Feb. 9th, 2008|04:14 pm]

Calarem-se

              as madrugadas num vasto silêncio

              de cortinas verdes

 

ou voarem

gaivotas num céu amargo e

 frio - não há

o mais fino fio de vida

além.

 

Aqui porém

dormimos suspensos

no azul da manhã.

 

Dissemos demasiadas coisas

é agora evidente

Calemo-nos pois

 

no claro e longo instante

de uma última

surpresa. Há

um horizonte de peixes azuis nos nossos sonhos

 

apesar disso.

 

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fim de semestre [Jan. 27th, 2008|06:42 pm]
"Toda a nossa dignidade reside no pensamento. É aí que devemos vê-la, e não no espaço nem no tempo, que não podemos preencher. Trabalhemos então no sentido de pensar bem - eis o verdadeiro princípio da moral."


Pascal, Pensées (trad. muito livre)
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noites claras [Jan. 27th, 2008|01:04 pm]

Dar aulas de Estética em Veneza

e só, onde os vértices dourados

nos ferem os joelhos.

E o sangue dela escorre

dos dedos para o mar, encontro

para lá do corpo já derrotado

no amor das coisas belas. Só

 

onde os dias nos

devolvem buganvílias

e um vinho diletante

nos aquece as noites claras.

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Vesteralen [Jan. 4th, 2008|09:33 pm]


          Anne-Marie tentava dormir, no quarto escuro. Só uma ténue luz vinda da janela tombava, líquida, sobre a cama, permitindo-lhe distinguir os contornos dos objectos. Escovara o cabelos cem vezes antes de se deitar mas mesmo assim as horas passavam – ouvira bater, no relógio da sala, a uma e depois as duas – e o sono não vinha. Na sua cabeça imagens do mundo, poemas, aforismos vários. E aquela luz branca, vinda da rua, que o quarto tornava misteriosamente cinzenta. Pensava no vestido vermelho que tinha usado na noite anterior e também no dia em que, aos cinco anos, entrara pela primeira vez num grande navio. Também nesse dia estava vestida de vermelho, com um grande laço sobre os caracóis castanhos. O relógio da sala bateu três vezes. Estava frio e doía-lhe o corpo. Lentamente, os seus olhos fecharam-se e, entre a vigília e o sono, navegou nos mares do Norte.

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melódica [Dec. 12th, 2007|10:59 am]


Lentamente,

 

devoras o cabelo em frente ao espelho.

 

desfazes o penteado que o dia te

obrigou a fabricar e fumas,

lentamente,

como se não houvesse o céu vermelho

para lá da janela e a cama desfeita

no outro quarto

e tu pudesses amar em sossego

longe do burburinho dos dias e dos outros

e pudesses ser só para ti.

 

Mas Deus, que tudo pode,

deve saber andar de bicicleta

e apanhar limões nas velhas estradas

de Benfica, quando, junto ao rio,

já da tarde se fez noite. é que

 

são apenas cinco os minutos daquela janela

e só depois da paixão te tornas livre

de amar, por isso

deixa que as nuvens se desfaçam nesta

vaga bruma sobre a cidade -

o Inverno vive agora e tece

o riso e as lágrimas de uma longa despedida.

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november news [Nov. 25th, 2007|01:04 am]

 

 

O frio e a miopia transformavam as luzes da cidade num fogo de artíficio amarelo e vermelho sobre as estradas do velho subúrbio. Lentamente, enrolou um cigarro, encostada ao muro da estação. Tremia um pouco, mas era normal. O Inverno chegara subitamente e não tinha tido ainda tempo de tirar as luvas da gaveta. Enquanto fumava pensava que tudo aquilo era muito cinematográfico, uma miúda encostada à parede da estação, talvez à espera de um comboio que a levasse ao seu destino, ou talvez do grande encontro. Mas não havia película ali. E, abraçada pelo ar frio do fim da tarde, comoveu-se com a beleza do momento.

 

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As mulheres de Helena [Oct. 27th, 2007|02:30 pm]

Recentemente, desenvolvera uma estranha obsessão por mulheres pelas quais pensava que ele se poderia apaixonar. Acontecia-lhe muitas vezes – fixar o olhar numa cara desconhecida, fixar-lhe o gesto, a expressão. E pensar – tão serena. Frequentemente também, comprazia-se em imaginá-las. Era uma construcção paciente, metódica, que lhe ocupava as viagens de metro e os tempos mortos. A vítima dessa tarde tinha o cabelo castanho muito claro apanhado na nuca, e um nariz petulante. Estava de costas e só esporadicamente conseguia vislumbrar-lhe os olhos pequenos. Durante a maior parte do tempo ficava limitada aos movimentos de uns dedos ágeis e delicados num cabelo que se empenhava em cair sobre a camisa vermelha. Inverosimilmente – pois era apenas uma miúda como as outras, perdida num café do centro – via nela a encarnação da sensatez e da ternura, da paixão e da firmeza. Fantasmas femininos, é claro que sempre tinham existido na sua vida. A novidade, verdadeiramente, era já não pensar “a mulher com que eu me deitaria” mas pensar, “a mulher por quem ele se poderia apaixonar”. Projectava nessas mulheres o seu superego, tão óbvia, tão pobre, poderia ser a explicação psicanalítica. Mas o certo era que se deliciava nessa pequena tortura quotidiana, que era simultaneamente prazer - o prazer de pensar nele através dessas mulheres que lhe destinava. Por isso ao regressar a casa, na carruagem do metro, sentia-se uma espécie de sibila perdida no seu pequeno ritual quotidiano, meia dormente meia feliz, com as mãos pousadas sobre o colo e um leve, quase imperceptível, sorriso nos lábios.

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lamed [1] [Oct. 6th, 2007|10:51 am]

 

 

No minuto secreto da palavra

 - naquele momento entre

os cortinados brancos

e a sala cheia da tua voz –

 

a rapariga escreve.

 

Debruçada sobre a mesa, espera.

A teia que tece é vermelha

e todas as dores do mundo

se apagam na combustão da sua dor.

 

Também aqui

os fantasmas no aquário ecoam.

Todos são da mesma cor

e nela todos te espelham.

 

Mas chega o minuto

em que o fumo do cigarro se escoa

no ar frio das seis e meia -

a rapariga, já dobrada sobre si mesma,

é abrigo e sal e gato

amarelo à luz fria do sol posto.

 



[1] o lamed é, segundo a tradição cabalística, a letra do alfabeto hebraico que traduz a ideia de sacrifício.

 
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Os violinos de Moszkva tér - quarto e último [Oct. 1st, 2007|11:52 am]

 

O átrio da estação brilhava, molhado, sob as várias camadas de fumo e nevoeiro. Não estava cheio, claro, mas era ainda considerável o número de pessoas que esperava. Para além disso, a azáfama do pessoal da limpeza, os comerciantes que fechavam as pequenas lojas e o voo de alguns pombos mais tardios contribuíam para um ar ainda caótico, apesar da hora.

Teodora dirigiu-se ao enorme placard azul que anunciava as partidas – Zagreb, 23.30; Moscovo, 23.45; Minsk, 23.50; Praga, 23.50; Bratislava, 00.05 – olhou para o enorme relógio que dominava, por cima da porta, toda a estação e verificou que ainda tinham meia hora. Propôs então a C. que se fossem sentar um pouco no café da estação. Frequentemente se tinha sentado ali, à espera de amigos ou de partida para uma das suas breves viagens. Gostava daquela atmosfera. O café chamava-se Palace ou Royal, como todos os do seu género. Teodora comovia-se sempre com o ar deslocado dos cadeirões e dos lustres, com a falta de sentido de todo aquele luxo atirado assim para o canto de uma velha estação de comboios.

Enfim, C. pediu um café e T. um ginger ale. Claro que aquele era o momento mais desconfortável, aqueles longos minutos que se escoavam em silêncio, os olhares vagos, fugidios, acender um cigarro, olhar, tentar sorrir e conseguir apenas um sorriso triste e aquele mesmo olhar que se tentava evitar, depois a absoluta ausência de conversa, as frases banais – mando notícias, claro, quando chegar, depois a morada, assim que a tiver – e de novo o silêncio, constragedor e carregado de palavras por dizer, os olhares, mais um cigarro, bom, faltam dez minutos, se calhar é melhor ir andando, claro que bastava levantarmo-nos três minutos antes mas alguém tem de acabar com isto.

 

Por breves instantes, caminharam lado a lado ao longo da plataforma número cinco e os seus passos ecoaram na estação entretanto adormecida. Aquele era o último comboio e não parecia ter muitos passageiros.

- Bem, acho que agora dizemos qualquer coisa, adeus, até breve?

Um beijo atrapalhado, rápido, e Teodora começou a dirigir-se à porta enquanto C., parado, a via afastar-se. Mas, subitamente, tão rapidamente que nem conseguiu tre consciência do movimento antes de o fazer e talvez impulsionado por todas as memórias de todos os filmes que vira ao longo da vida começou a correr, correu até ela, agarrou-lhe no braço, obrigou-a a voltar-se, a olhá-lo nos olhos.

Foi então, quase à porta da carruagem número sete, classe económica, que ele lhe perguntou: Vais mesmo? Após alguns minutos de silêncio, ela pousou as malas e respondeu.

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Os violinos de Moszkva tér - três [Sep. 27th, 2007|07:21 am]
 

Eram já cerca de dez horas quando Teodora acordou, com a roupa amarrotada e um gosto amargo na boca. Acendeu o candeeiro e olhou uns minutos para a mesa, cheia de copos vazios e cinza. Da janela podia ver a fraca iluminação da cidade. Voltara a chover e, talvez por isso, não havia quase ninguém na rua. De qualquer maneira era tarde já, e as janelas iluminadas dos apartamentos vizinhos tinham um ar confortável e doméstico que a fez suspirar. Quando se voltou reparou que C. também se erguia da cama. Com um ar meio adormecido meio confuso perguntou as horas. Dez e um quarto, respondeu Teodora. Ainda é cedo, acrescentou, como para o descansar. Onde apanhas o comboio? Na Térez körut. Tens mesmo a certeza disto? Absoluta. Sendo assim vou buscar o carro, tens as malas feitas, não é?

 

Uma vez sozinha, Teodora pôs-se a olhar para a sua velha casa. O pequeno apartamento revelava-se, na penumbra daquela última noite, uma fonte inesgotável de memórias. A maior parte dos livros deixava-os para trás. Compraria outros depois. No entanto ainda se dirigiu à estante e, um pouco arbitrariamente, pegou em mais alguns, que arrumou na mala. Os tons verdes e vermelhos da casa pareciam-lhe estranhamente confortáveis e, pela primeira vez, perguntou-se se deveria realmente fazer uma viagem que começava a angustiá-la. Mas, quase simultaneamente, ouviu o carro de C. buzinar lá em baixo, junto ao prédio. Portanto, levantou-se, pegou nas malas e saiu. Deixou as luzes acesas, a cama desfeita, as garrafas vazias em cima da mesa, como alguém que sai para regressar pouco depois, vindo do café ou da mercearia. Enquanto descia os degraus, um a um, sentiu um ardor nos olhos negros e pensou que, durante o sono, devia ter estragado a maquilhagem.

 

C. fumava um cigarro encostado à porta do carro. Quando a viu chegar reconheceu imediatamente no seu rosto os sinais da angústia. Mas, mais uma vez, sabia que era inútil perguntar. Por isso, limitou-se a abrir o porta bagagens e a arrumar lá as malas. Quando Teodora fechou a porta do carro os seus olhos cruzaram-se com o relógio. Eram exactamente onze horas.

 

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Os violinos de Moszkva tér - dois [Sep. 22nd, 2007|02:43 am]

Passava já das seis quando decidiram deixar a esplanada. De braço dado, como nos velhos tempos, dirigiram-se lentamente para a margem do Danúbio. A tarde caía sobre Ersébet híd – um fim de tarde claro e limpo, daqueles que só se encontram depois da chuva. O Danúbio brilhava sob os raios de sol, azul e verde. Os edifícios ganhavam o tom amarelado do crepúsculo e  grandes bandos de gaivotas volteavam no céu. Teodora e C., pareciam, vistos de longe, duas belas personagens de um filme. Silhuetas pretas sobre o branco da ponte, caminhavam em passos lentos, num silêncio harmonioso e triste. Já na outra margem, caminharam para sul ao longo do rio. Teodora sempre gostara daquele sítio. Claro, aberto, marítimo, era como outra cidade, uma cidade que lhe conseguia devolver um pouco da alegria e da jovialidade perdidas algures numa das avenidas interiores. Mas, naquela tarde, mesmo o antigo espaço de liberdade lhe parecia carregado de presságios.

O crepúsculo é naturalmente melancólico – um fim de tarde pode soar como o fim de uma vida. Então, na memória de ambos começaram a surgir recordações da infância e da adolescência passadas em comum sobre os escombros da guerra. Estavam ambos em casa da mãe de Teodora no dia em que os alemães, em retirada, fizeram explodir todas as pontes da cidade. Teodora dizia que nunca se tinha conseguido libertar desse dia – da imensidão da destruição, da dor, da culpa.

Acho que data daí essa tua maneira de ser, frágil, escura, descrente, começou C. Acreditaste depois um pouco no socialismo, claro. Mas nunca te entregaste verdadeiramente. É por isso que não entendo afinal o que vais fazer para Bratislava.

Teodora procurou os cigarros na mala, acendeu um deles e ficou assim, dobrada sobre si mesma, a olhar o rio, a cidade, o céu. Disse: olha, vês? A cidade já ganha este ar trágico de quem se prepara para assisitir ao declínio de mais um grande Império. A verdade é que estou farta da grande tragédia da História. Disseram-me que se vivia bem em Bratislava.

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Os violinos de Moszkva tér - um [Sep. 19th, 2007|03:47 pm]

O encontro era às quatro, na esplanada em frente à sinagoga. Apressada, Teodora caminhava pela rua comprida e estreita com pequenos passos rápidos. Toda a sua vida caminhara assim, silenciosamente, quase a tocar os muros. Tinha começado nesse dia a chover em Budapeste, o que fazia com que a maior parte dos transeuntes continuasse a usar sandálias e camisas brancas, mas Teodora vestia-se sempre de preto. Não estava insatisfeita por ter começado a chover. Pelo contrário, pensava que a chuva era o mais adequado para aqueles que, como ela, tinham uma aguda consciência do lado trágico da vida. Mesmo aquele modo de andar, pensava nele muitas vezes. Assumia-o como uma memória, inscrita nos seus genes, de séculos e séculos de diásporas e holocaustos. Acontecia-lhe muitas vezes lembrar-se da mãe, enquanto caminhava assim pelas ruas escuras do bairro. Ela era dali – Teodora tinha sido sempre uma estrangeira. Era esse o segredo da sua indiferença, era aquilo que C. nunca tinha conseguido entender. Por isso fora tão fácil fazer as malas. Por isso a sua decisão era irreversível. E à medida que ia avançado pela cidade, Teodora sentia-se a sentir cada vez menos – caminhava na quase absoluta suspensão não só do sentimento, mas também do juízo. Sabia que, de certa forma, todo o sistema de signos ao qual estava habituada se dissolvia lentamente. E não queria pensar nisso.

 

Quando chegou ao local do encontro C. ainda não tinha chegado. Atrasado, como sempre. Teodora pediu um ginger ale e acendeu um cigarro. Começava a sentir-se um pouco ansiosa. Tinha realmente grande necessidade de se despedir e começava a pensar que, se C. não aparecesse, teria de perder o comboio e voltar a telefonar, com a frieza habitual, a suplicar um novo encontro. Não teve, no entanto, muito tempo para se perder em tais angústias. Dez minutos mais tarde a silhueta seca e elegante de C. dobrava a esquina.

C. passara a maior parte das sua vida a flutuar sobre ela. Na juventude publicara alguns estudos cabalísticos bastante elogiados, que lhe renderam um considerável prestígio nos círculos intelectuais de Budapeste e dinheiro suficiente para, cansado da gnose, financiar alguns anos de boémia. Agora, nem uma coisa nem outra, gostava de observar o voo das gaivotas sobre o danúbio e de vinho francês.

 - Passámos toda a nossa vida a encontrar-nos em cafés, disse Teodora, com um sorriso quase triste, enquanto ele se aproximava da cadeira.

- Olá, Teodora.

- Olá, C.

- O café aqui é bom?

- Tanto quanto pode ser.

- Dois cafés, então, como sempre.

- C.?

- Sim?

- Vou-me embora.

- Vais-te embora?

- Sim, parto para Bratislava ainda hoje, à meia-noite.

- Bratislava?

- Sim, meu querido. Isto é nada mais nada menos do que a minha teatral despedida.

 

Imperturbável, como sempre, C. sabia melhor que ninguém que não valia a pena fazer perguntas. A explicação surgiria, inevitavelmente, quando o silêncio se tornasse insustentável.

Viste o jornal?, perguntou finalmente Teodora. Tinha parado de chover entretanto e bandos de pássaros planavam agora sobre o céu cinzento.

- Toda a gente viu o jornal.

- Pois bem, os sinais multiplicam-se. Todos pensam que será melhor depois, como sempre. Mas eu não. Tenho perdido a paciência para pensar, sabes? Pensei só que como tens carro talvez me pudesses levar à estação.

- Não sabia que estavas assim tão ligada a isto.

- Não estou.

- Então?

- Então nada.

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